11 de Setembro, um ano depois
Para relembrar o 11 de Setembro, publico a tradução de uma carta enviada ao Presidente dos EUA por Robert Bowan, tenente-coronel e ex-combatente do Vietname, actualmente Bispo da Igreja Católica na Flórida.
Carta a George W. Bush Conte a verdade ao povo, Sr. Presidente, sobre terrorismo. Se as ilusões acerca do terrorismo não forem desfeitas, a ameaça continuará até destruir-nos completamente. A verdade é que nenhuma dos nossos milhares de armas nucleares pode proteger-nos dessas ameaças. Nenhum sistema "Guerra nas Estrelas" (não importa quão tecnicamente avançado seja, nem quantos trilhões de dólares sejam despejados nele) poderá proteger-nos de uma arma nuclear trazida num barco, avião, mala ou carro alugado. Nenhuma arma do nosso vasto arsenal, nem um centavo sequer dos US$ 270.000.000.000,00 (isso mesmo, duzentos e setenta bilhões de dólares) gastos por ano no chamado "sistema de defesa" pode evitar uma bomba terrorista. Isto é um facto militar. Como tenente-coronel reformado e frequente conferencista em assuntos de segurança nacional, sempre tenho citado o salmo 33: "Um rei não é salvo pelo seu poderoso exército, assim como um guerreiro não é salvo pela sua enorme força." A reacção óbvia é: "Então o que podemos fazer? Não existe nada que possamos fazer para garantir a segurança do nosso povo?" - Existe. Mas para entender isso, precisamos saber a verdade sobre a ameaça. Sr. Presidente, o senhor não contou ao povo americano a verdade sobre o porquê de sermos alvo do terrorismo quando explicou porque bombardearíamos o Afeganistão e o Sudão. O senhor disse que somos alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos no mundo. Que absurdo, Sr. Presidente! Somos alvo dos terroristas porque, na maior parte do mundo, nosso governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvo dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos, substituindo-os por militares ditadores, marionetes desejosas de vender seu próprio povo a corporações americanas multinacionais? Fizemos isso no Irão quando os Marines e a CIA depuseram Mossadegh porque ele tinha a intenção de nacionalizar a indústria de petróleo. Nós substituímo-lo pelo Xá Reza Pahlevi e armamos, treinamos e pagamos a sua odiada guarda nacional Savak, que escravizou e brutalizou o povo iraniano para proteger o interesse financeiro de nossas companhias de petróleo. Depois disso, será difícil imaginar que existam pessoas no Irão que nos odeiem? Fizemos isso no Chile. Fizemos isso no Vietname. Mais recentemente, tentamos fazê-lo no Iraque. E, é claro, quantas vezes fizemos isso na Nicarágua e outras repúblicas na América Latina? Uma vez atrás da outra, temos destituído líderes populares que desejavam que as riquezas da sua terra fossem repartidas pelo povo que as gerou. Nós os substituímos por tiranos assassinos que venderiam o seu próprio povo, mediante o pagamento de vultosas somas para engordar suas contas particulares, a riqueza de sua própria terra pudesse ser tomada por similares à Domino Sugar, à United Fruit Company, à Folgers e por aí fora. De país em país, nosso governo obstruiu a democracia, sufocou a liberdade e espezinhou os direitos humanos. É por isso que somos odiados em todo o mundo. E é por isso que somos alvo dos terroristas. O povo do Canadá desfruta da democracia, da liberdade e dos direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. O senhor já ouviu falar de embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas a ser bombardeadas? Nós não somos odiados porque praticamos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Nós somos odiados porque nosso governo nega essas coisas aos povos dos países de terceiro mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas corporações multinacionais. Esse ódio que semeamos virou-se contra nós para assombrar-nos na forma de terrorismo e, no futuro, terrorismo nuclear. Uma vez dita a verdade sobre o porquê da ameaça existir e ter sido entendida, a solução torna-se óbvia. Nós precisamos mudar as nossas práticas. Livrarmo-nos das nossas armas nucleares (unilateralmente, se necessário) irá melhorar a nossa segurança. Alterar drasticamente nossa política externa irá assegurá-la. Em vez de enviar nossos filhos e filhas pelo mundo fora para matar árabes de modo que possamos ter o petróleo que existe sob suas areias, deveríamos mandá-los para reconstruir sua infra-estrutura, fornecer água limpa e alimentar crianças famintas. Em vez de continuar a matar milhares de crianças iraquianas todos os dias com nossas sanções económicas, deveríamos ajudar os iraquianos a reconstruir as suas centrais eléctricas, as suas estações de tratamento de água, os seus hospitais e todas as outras coisas que destruímos ou impedimo-los de reconstruir com sanções económicas. Em vez de treinar terroristas e esquadrões da morte, deveríamos fechar a Escola das Américas. Em vez de sustentar a revolta, a desestabilização, o assassínio e o terror pelo mundo fora, deveríamos abolir a CIA e dar o dinheiro gasto por ela a agências de assistência. Resumindo, deveríamos ser bons em vez de maus. Quem iria tentar deter- nos? Quem nos iria odiar? Quem nos iria querer bombardear? Esta é a verdade, Sr. Presidente. É isto que o povo americano precisa ouvir.
Eu diria que é o que precisa de ouvir o povo de todo o mundo. Andamos a ser enganados porque queremos.
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